Opinião

Um golpe na democracia e na economia

Não foi em 31 de março. Foi em 1 de abril. O golpe de 64 se deu no dia da mentira, quando João Goulart, presidente constitucional, foi deposto. Abortava-se ali um regime democrático, e paria-se uma ditadura. Controvérsia à parte, o fato é durante 21 longos anos o Brasil viveu um dos períodos mais sombrios de sua história. Quem discordasse do regime tinha mandato cassado, era sequestrado, torturado, violentado e até mesmo assassinado.

Revisionistas dirão que foi movimento ou revolução. Ficcionistas como Braga Netto, o novo ministro da Defesa, insistirão que a ditadura foi a porta para a democracia que hoje conhecemos. É assim que matam a verdade ou que tentam borrá-la. Mas a verdade se impõe porque, felizmente, há vozes que não foram caladas e resisitiram à tirania.

Os saudosistas de plantão  argumentam que a ditadura, fruto de um golpe cívico-militar, trouxe progresso.  Uns falam do “milagre econômico” de 68 a 73. O Brasil cresceu mesmo no período, em média 10% ao ano. Conseguiram modernizar a economia e a inflação caiu, mas o preço foi muito alto! Para que o plano econômico funcionasse, militares achataram salários, acabando com o reajuste pela inflação. Empresários foram beneficiados a custo da imensa massa de trabalhadores. Com aumento da concentração de renda cresceram também as distorções sociais. Os mais pobres foram duramente castigados.

Durante o regime ditatorial houve investimentos em estradas e indústrias automobilísticas. Tudo baseado no alto endividamento externo. Mesmo com a  crise mundial do petróleo, a equipe econômica decidiu manter o crescimento a qualquer custo. Fez um empréstimo em cima do outro e o país se atolou em dívida.  Em 20 anos a dívida externa, de acordo com o Banco Central, quadruplicou. Quando a ditadura caiu, em 1985, a inflação chegou a 223%. Seus efeitos deletérios não findaram aí. Em 1989, a colheita foi ainda mais danosa: inflação de 1782%. Ou seja, o país quebrou. Não à toda economistas chamam isso de herança maldita.

E a corrupção?

A história dá conta de que entre os interesses público e privado reinou a promiscuidade. Não falar sobre isso não significa que não aconteceu. O silêncio se explica pela forte censura aos veículos de comunicação durante a ditadura. Controle de menos e instituições amordaçadas: Estado, Ministério Público, Judiciário.

Com o AI-5, o Ato Institucional número cinco, houve forte repressão no país com fechamento do Congresso Nacional em 1968, tortura de adversários políticos e desaparecimento de mais de 400 pessoas. Tudo devidamente registrado e embasado em documentos e depoimentos colhidos na Comissão Nacional da Verdade.

Ainda assim alguns casos vieram à tona, principalmente no período de transição. Um deles envolve a suposta cobrança de propina por parte do Ministro da Fazenda, Delfim Netto, em obras de financiamento e compra de equipamentos de usinas hidrelétricas.

Foi durante a ditadura militar que se pavimentou também o terreno para pagamento de propinas a empresas como Camargo Correa e Odebrecht.

Perseguidos e mortos da Paraíba

A Comissão da Verdade apurou que 131 paraibanos foram torturados. Há quem defenda o contrário. Ainda há quem diga: “meus pais, meus avós garantem que isso não aconteceu. Que só bandido era perseguido”. É o negacionismo típico da ignorância.

Professores, pesquisadores, artistas, políticos, camponeses, jornalistas foram perseguidos. Uns fugiram, foram exilados, outros desapareceram. Na Paraíba, uma das vítimas foi o promotor de justiça e professor da Universidade Federal da Paraiba (UFPB), Agassiz de Almeida. Em 64 ele foi demitido e encarcerado em Fernando de Noronha(PE) acusado de crimes contra a segurança nacional pela defesa das ligas camponesas. O terror para Agassiz só acabou em 79, com a lei da Anistia, quando conseguiu retomar as funções.

57 anos depois

Um fantasma que assombra. O Brasil jamais enterrou a ditadura e ainda hoje persegue o conhecimento, a ciência e a cultura. No Brasil de Jair Bolsonaro, ser professor, defensor das liberdades e garantias constitucionais é ser subversivo. No Brasil de Messias, apesar das evidências irrefutáveis dessa tragédia brasileira, muitos mitificam um passado que nunca viveram em nome de violências e retrocessos como se existisse ordem e progresso fora do exercício das liberdades que o estado democrático garante.