Opinião

#29M: quando o luto vira luta

Protestos nascem de grandes incômodos – insatisfações generalizadas que se encontram e, tensionadas, explodem como uma onda que quebra na rebentação. Sem freios. Só energia. Resultado da lógica da exclusão. São o ponto crítico ou tipping point, como afirma a socióloga Saskia Sassen, da Universidade de Colúmbia.

Em um país tomado pelo medo, pelo desânimo diante do caldeirão de crises que desaguam no desemprego, no aumento da miséria e do contingente de famintos, é de se esperar desmobilização popular – principalmente depois de anos de ataques e criminalização da organização social como instrumento político.

Mas o contrário também acontece. Foi o que se viu no levante de 29 de maio, o #29M. A paralisia de um governo diante de uma pandemia viral que já matou mais de 450 mil brasileiros e sua cristalina disposição para o boicote à vacina (o Brasil recusou 14 ofertas, 6 delas da Pfizer conforme declarou o ex-presidente da empresa no Brasil, Carlos Murilo, à CPI da Covid) tiraram dezenas de milhares de casa. Nesse caso, o medo e o esgotamento deram causa a grandes mobilizações. Mascarados, armados de dor e revolta. Faixas nas mãos, recado nos olhos, no peito e na ponta da língua: “fora Bolsonaro!”

São Paulo, Rio de Janeiro, João Pessoa… Em parte do Brasil, para além do ciberespaço, o medo ressignifcado virou luta e ecoou mundo afora. Na França, Le Monde e Libération destacaram o protesto. Na Inglaterra, The Guardian e The Economist. Periódicos e TVs da Alemanha e Argentina noticiaram o #29M. “Impopular”, “sitiado”, “enfraquecido”. Adjetivos citados nos veículos internacionais em referência a Jair Bolsonaro que permanece sem partido. Recusado até pelo PP, partido que lidera o Centrão e sua inorgânica base, o presidente enfrenta desgaste inédito desde o início do mandato.

Quanto mais se acumulam os mortos pela covid-19, mais cresce a rejeição ao capitão e mais o luto se reveste de força e de voz. Um dos cartazes exibidos no evento contra Bolsonaro e pela vida, sintetiza bem isso: “Se o povo protesta em meio a uma pandemia é porque o governo é mais perigoso que o vírus.”