A Esquerda Católica no Brasil: da Ação Popular ao petismo – Primeira parte

Esta semana, mais uma vez, pedirei licença para publicar uma coluna diferente. Recebi um excelente texto do amigo Emmanuel Paulino de Luna, historiador e doutorando em Ciências das Religiões, que considero necessário para entender a atual conjuntura política do nosso país e compreendermos nesse contexto o imprescindível papel da religião, por isso, aqui o replico para você, caro leitor. Aqui registro minha gratidão por ter aceitado mais um desafio para discutir política e religião comigo ao longo desses anos do mestrado e do doutorado. Segue o texto que, por sua complexidade e riqueza, será apresentado em duas partes.

Parte I

Embora seja um tema relativamente debatido na academia, a existência de uma Esquerda Cristã é muitas das vezes ignorada pelo “senso comum”, de modo que muitos brasileiros associam o cristianismo unicamente aos valores defendidos pela ala da Direita cristã, e isso precisa ser desmitificado. É nesse sentido que este artigo traz uma breve reflexão sobre a presença de católicos progressistas na formação da esquerda brasileira, culminando na formação do Partido do Trabalhadores (PT) que é a maior organização partidária de esquerda da América Latina. Para início de conversa, precisamos pensar no cristianismo como expressão prática na formação do mundo ocidental que vai além do seu ideal unitário da mensagem salvadora do Cristo, o homem/deus encarnado.

O cristianismo compõe um tecido social demasiadamente complexo na história, não só nos aspectos institucionais surgidos a partir da Reforma Protestante que no século XVI fatiou a cristandade em centenas de denominações que mesclam diferenças teologias com interesses políticos/organizacionais distintos, mas também pela visão social diversa que existiu antes e durante a institucionalização da Igreja Católica (e permaneceu após). Tendo em mente que o espaço de diálogo com o leitor é limitado, como provocação inicial pensemos a partir das afirmações de Antonio Gramsci que constatou que:

Toda religião, inclusive a católica (na verdade, especialmente a católica, precisamente por seus esforços para permanecer unificada “superficialmente”, de modo a não se fragmentar em igrejas nacionais e estratificações sociais) é na realidade uma multiplicidade de diferentes religiões e muitas vezes contraditórias: há um catolicismo dos camponeses, um catolicismo dos pequenos burgueses e dos operários urbanos, um catolicismo das mulheres e um catolicismo dos intelectuais, este também variado e desconexo. (GRAMSCI, 1996, p.81)

Sendo assim, é natural compreendermos que os diversos grupos cristãos possuem formas diferentes de compreender os processos políticos e suas respectivas conexões com a tradição judaico-cristã, ainda mais quando tratamos do catolicismo enquanto religião hegemônica na história do Brasil. As raízes que permitiram o surgimento de um pensamento da Esquerda Católica no Brasil, remontam o nascimento da Ação Católica – AC, um conjunto de movimentos nascidos no seio na igreja em 1929 sob o papado de Pio XI que objetivava ampliar a influência da igreja na sociedade do século XX. A AC constituiu um movimento que direcionava alguns setores do laicado para uma (re)aproximação da fé cristã baseada na Doutrina Social da Igreja, tendo em vista que os princípios iluministas do racionalismo e cientificismo poderiam (em tese) colocar em cheque a influência da igreja na sociedade contemporânea.

No Brasil a Ação Católica Brasileira (ACB) foi fundada em 1935 pelo cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, todavia, antes da fundação oficial da ACB, o país já possuía uma organização intelectual católica desde o início da década de 1920, denominada Centro Dom Vital (CDV) que serviu como base para organização da ACB. O CDV a princípio possuía um cateter ideológico de direita; segundo Kornis (2009) o referido centro fazia oposição ao comunismo defendendo pautas que iam desde o apoio ao monarquismo até a Ação Integralista Brasileira, movimento de inspiração fascista fundado na década de 1930 com a participação de muitos católicos. Embora a intelectualidade católica da CDV tenha todo esse histórico, ao apoiar e cooperar com a Ação Católica Brasileira, auxiliou ainda que de maneira indireta para o surgimento de novas correntes dentro do catolicismo brasileiro.

A ACB fomentou vários movimentos católicos pelo Brasil, aglutinando a Juventude Feminina Católica (1932), criando a formação dos Homens da Ação Católica e a Liga Feminina Católica em meados dos anos de 1930, mas foi através das divisões da juventude que ACB formulou as bases da Esquerda Católica através da formação da Juventude Estudantil Católica (JEC – 1935), Juventude Universitária Católica (JUC – 1950) e Juventude Operária Católica (JOC – 1935), que organizavam jovens outrora dispersos. A juventude católica se manteve próxima à hierarquia da igreja até meado do século XX, quando a ACB foi reformulada seguindo os modelos francês, canadense e belga, que mantinham as relações com a igreja, mas admitiam maior autonomia perante as paroquias e dioceses. Entre as mudanças obtidas foi retirado o critério de idade e sexo, estruturada a Juventude Agrária Católica (JAC), além de criados outros núcleos que direcionavam os olhares do laicado mais próximos para os problemas sociais.

Segundo Barbosa (2007), foi esta aproximação dos leigos a partir da conjuntura social especifica em detrimento do modelo da AC italiano mais “preso” as paroquias e diocese, que fez surgir a Esquerda Católica no Brasil, pois a experiência, especialmente da juventude diante dos problemas sociais, condicionou uma reflexão dialética sobre a realidade concreta, fazendo com que os católicos da ACB se aproximassem de teses socialistas como método de análise e estratégia para o combate as injustiças sociais.

Este direcionamento para a realidade sociopolítica dos movimentos tutelados pela Ação Católica Brasileira direcionaram os militantes leigos para uma posição cada vez mais à esquerda, onde os jovens, compreendendo a necessidade de oposição ao imperialismo e ao capitalismo como forma de humanizar as reações sociais para a construção de um mundo mais justo, buscavam no socialismo a saída para a celeuma social brasileira. A priori a Esquerda Católica não se declarava necessariamente marxista, mas propunha um socialismo humanista pautado em pensadores e teólogos humanistas como: Emmanuel Mounier, Teilhard de Chardin e Henrique Cláudio de Lima Vaz, admitindo conceitos socialistas para o enfrentamento dos dilemas de classe.

Com o passar dos anos os católicos de esquerda tornaram-se cada vez mais influentes no Movimento Estudantil e na opinião pública, fato este que despertou a preocupação da hierarquia católica. No início dos anos 1960 parte dos militantes da ACB, especialmente da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Juventude Estudantil Católica (JEC) resolveram se desligar oficialmente da organização fundando a Ação Popular (AP), composta incialmente por católicos ex-membros da ACB, que desejavam mais autonomia em suas ações.

 

*Emmanuel Paulino de Luna é historiador e doutorando em Ciências das Religiões

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Imerson Alves. A Esquerda Católica na formação do PT. 2007. 167 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais de Marília, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2007.

GRAMSCI, Antonio. Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce. 3º. Ed. Roma: Editori Riunitti, 1996.

KORNIS, Mônica. Centro Dom Vidal. 2009. Disponível em <  http://fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/centro-dom-vital> Acesso em 03 de abril de 2021