A política presente na ética protestante e no “espírito” do capitalismo de Max Weber

A coluna desta semana traz uma breve análise de A ética protestante e o “espírito” do capitalismo de Max Weber, uma obra  para quem gosta de uma boa leitura sobre política, além de ser de suma importância para entender o panorama da atual conjuntura. Outro motivo é que a proposta da nossa coluna tem esse cunho acadêmico também e, além disso, esse é um texto que não poderia faltar para leitura numa coluna que aborda política e religião.

Pra começar, é importante entender que o objetivo central do texto é fornecer uma visão sobre o surgimento do capitalismo e seu conceito a partir de algo que Weber chama de “espírito do capitalismo”, o que seria o pensamento pré-capitalista. Para introduzir seu pensamento, Weber utiliza um texto de Benjamin Franklin, cuja ideia central é o acúmulo, a mercantilização e o caráter utilitário do capital.

A tese Weberiana, ao observar os principais países capitalistas do mundo na época que eram protestantes calvinistas, é que o calvinismo engendrou o espírito capitalista e, por conseguinte, o capitalismo. Ou seja, foi através da igreja calvinista que se estruturou o conceito do trabalho como um valor positivo e não como uma carga. Os calvinistas acreditavam que os seres humanos já nasciam predestinados, mas só se saberia quem eram estes predestinados, os escolhidos de deus, a partir do êxito no trabalho e da resistência ao pecado. O pecado, por sua vez, está relacionado à preguiça, portanto, ao não-trabalho. Ser bem sucedido era um sinal de que o sujeito seria o provável escolhido de deus. 

Esse olhar voltado para o lucro, para os investimentos, para o lucro pelo lucro, estabelece uma nova ética, a ética protestante, que se opõe ao catolicismo que era, segundo Weber, mais voltado para as atividades humanistas e para o ócio. Ócio aqui se leia no sentido de momento de criação e reflexão. De acordo com essa nova ética protestante, o trabalho, e não a compaixão ou a devoção religiosa levariam à salvação da alma, o que gerou uma nova forma de devoção, desta vez, ligada ao trabalho e à prosperidade financeira. Essa ética perversa levou muitos a mergulharam em busca do capital que jamais teriam em detrimento da saúde e da própria família. Ela esteve presente nos campos de concentração de Auschwitz, na Alemanha Nazista, onde, nos portões de entrada, era possível ler: “o trabalho liberta”.

O espírito do capitalismo, assim sendo, tenta traduzir uma realidade histórica encadeada através de complexas conexões que se traduzem cultural e socialmente, ou seja, analisa a sociedade historicamente e o processo ideológico de uma política econômica cuja base e juízo ético é estritamente religioso.

Weber inicia sua busca com um delineamento provisório para compreender seu objeto e mostra através do texto de Franklin, o espírito utilitarista do capitalismo, e não apenas isso, um espírito que se veste das aparências para conseguir aumentar seu capital. De tal forma, a lógica do capital é gerar lucro e investimentos financeiros em detrimento da retidão de caráter e das virtudes reais, onde ser honesto era necessário para aumentar o crédito e não ser honesto pela honestidade em si. A honestidade, portanto é um meio, e não um fim. A ética apregoada por Franklin é, portanto, o próprio espírito do capitalismo, ao que Kurnberger chama, segundo Weber, de filosofia da avareza, onde o capital é “um fim em si mesmo” (WEBER, 2004, p. 45).

O texto de Franklin na verdade desloca o conceito do Ser virtuoso para o Ser útil e atribui a utilidade da virtude a uma revelação divina. Há uma inversão de valores além de um caráter meritocrático, já que quem ganha dinheiro e é bem sucedido financeiramente é aquele que alcança o êxito  profissionalmente, excluindo aqueles que jamais tiveram oportunidades de galgar socialmente uma posição afortunada. A esse espírito capitalista Weber define como sendo um “imenso cosmos em que o indivíduo já nasce dentro”  (WEBER, 2004, p. 48) e que se impõe, eliminando todo aquele que insistir em transgredi-lo. 

A lógica do ganho inescrupuloso presente no capital, a “auri sacra fames é tão velha quanto a história da humanidade que conhecemos” (WEBER, 2004, p. 50), o que muda nessa circunstância é a lógica imposta pelo espírito do capitalismo.  O termo em latim  utilizado por Weber significa maldita fome de ouro, que parece ser algo inerente à própria humanidade. No entanto, essa virada do pré-capitalismo traz o capital como norteador da existência e cria um novo paradigma ético, um novo éthos capital forjando uma nova “ordem econômica de cunho capitalista-burguês” (WEBER, 2004, p. 51).

Esse casamento entre a ambição e o capital, a partir da disposição do espírito do capitalismo, deu origem aos novos capitalistas e novos representantes, moldando um modelo de empresário com um novo paradigma ético de “homens criados na dura escola da vida, a um só tempo audazes e ponderados, mas sobretudo sóbrios e constantes, sagazes e inteiramente devotados à causa”  (WEBER, 2004, p. 61/62), cujos princípios burgueses são sórdidos, perversos. Nessa estrutura, quem não se “adapta às condições do sucesso capitalista, ou afunda ou não sobe” (WEBER, 2004, p. 64). 

Para que esse círculo, de certa forma tautológico, esteja completo, o capitalismo moderno não mais necessita de antigos suportes, ele engendra a si mesmo sem as muletas clericais a que um dia recorreu e alimentou em troca da bem-aventurança eterna de seus patrícios. Enfim, a missão dada àquele que busca se escalar no capital a partir de uma “vocação profissional” para a exploração racionalista da sociedade, está intrinsecamente ligada ao espírito capitalista que rege a politica e que fez seus primeiros ensaios através de estreitos laços  com a igreja que buscava seus escolhidos e bem aventurados colaboradores.

 

REFERÊNCIA:

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Introdução, p. 41-69.