Opinião

Marielle e Anderson: 4 anos de impunidade e tirania

Quatro anos atrás os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSol) e do motorista Anderson Gomes traziam mais interrogações que certezas. Três acusados da execução do crime foram presos, entre eles um paraibano e o policial reformado Ronnie Lessa, que morava em condomínio de luxo, no Rio de Janeiro, incompatível com sua renda. Lessa era vizinho de Jair Bolsonaro.

Uma série de interferências foram registradas e podem ter contribuído para esse fiasco: cinco delegados assumiram as investigações, o último deles a menos de um mês, e três grupos diferentes de promotores foram designados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Resultado: perda de continuidade, impunidade e ainda muitas perguntas sem respostas: quem mandou matar Marielle? Por quê? Por que tamanha demora na conclusão do caso? Onde está a arma do crime? A motivação foi política? Polícia e MP não falam nada a respeito, apenas revelam que não há prazo para a conclusão desse quebra-cabeça.

Eis o retrato da ineficiência das instituições. Se funcionam, definitivamente, não é pra todos. As execuções de Marielle e Anderson não se esgotam em si mesmas porque representam também a morte da palavra, da diplomacia e de uma democracia substantiva, que tem no diálogo seu principal instrumento de transformação. Quando vozes são silenciadas e o contraditório é censurado; quando críticas são rechaçadas e  diferentes sujeitos são tolhidos do direito de se expressar, matam também a democracia.

Mulher preta, mãe solo, da periferia e LGBT, Marielle morreu por que questionou, denunciou e não se calou diante da violência política, policial e das milícias?  Morreu por que, ao tempo que era ameaçada também representava, em si mesma, uma ameaça? Já se passaram 1. 460 dias daquele 14 de março de 2018. A vereadora carioca e seu motorista viraram estatística e integram os 70% dos inquéritos de assassinatos sem desfecho no país (Fonte:Instituto Sou da Paz).

É por que tanta repercussão dos de todo esse tempo? Simples. Mataram o corpo, mas não acabaram com a causa. Isso porque Marielle era produto das massas. Era a voz das massas. E por mais que a organização popular tenha sido criminalizada no Brasil, Marielle soube furar bloqueios e plantou sementes. Contou com o apoio de 46 mil pessoas. Foi a quinta candidata mais votada do Rio e a segunda mulher mais votada para o parlamento municipal em todo o país. Era um ponto fora da curva. Pensava e ajudava a pensar. Quando assassinaram Marielle, tiraram de todos aqueles que nela votaram a capacidade de se fazer representar, de se fazer ouvir. Três tiros na cabeça e um no pescoço da jovem mulher de 38 anos silenciaram também outros milhares de jovens, idosos, negros, pardos, brancos, pobres… Todos órfãos da vereadora que ousou enxergar os que são continuamente invisibilizados todos os dias, e massacrados pelo mesmo sistema que Marielle peitou.

A morte de Marielle Franco é sintoma de uma democracia que anda sobrecarregada como todo corpo quando um de seus órgãos entra em colapso: os sistemas não funcionam bem, não são capazes de dar uma resposta à sociedade, há recrudescimento das forças conservadoras. No entanto, há ainda capacidade de reação e esperança de dias melhores. O caminho passa pela mobilização. Era o que dizia e fazia Marielle em vida. A organização coletiva é a força condutora contra a tirania, e disso depende a democracia.

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